Uma declaração do prefeito de Itabirito, Elio da Mata (Cidadania), durante a 33ª Julifest, chamou a atenção pelo contraste com os dados públicos disponíveis. Em conversa com o pré-candidato ao Governo de Minas Gerais, Gabriel Azevedo, o chefe do Executivo afirmou que a arrecadação da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) teria despencado para R$ 7 milhões por mês, utilizando o dado para ilustrar as dificuldades financeiras enfrentadas pelo município.
“Aqui teve uma época, logo depois da pandemia, que a gente chegou a arrecadar quase R$ 30 milhões por mês. Agora nós estamos em sete.”
A declaração, entretanto, não encontra respaldo nos números oficiais.
O Mais Itabirito analisou os dados públicos da Agência Nacional de Mineração (ANM), as Leis Orçamentárias Anuais (LOA) e informações oficiais do próprio município. A conclusão é objetiva: a arrecadação realmente diminuiu em relação ao período de recorde registrado em 2021, porém está muito distante dos R$ 7 milhões mensais informados pelo prefeito.
Os números contam outra história
Os dados oficiais mostram que Itabirito arrecadou:
- 2021: R$ 522.713.950,15;
- 2025: R$ 265.409.885,98;
- 2026 (até junho): R$ 119.542.541,01.
Isso significa que, apenas nos seis primeiros meses de 2026, o município recebeu uma média próxima de R$ 20 milhões por mês em CFEM — quase três vezes mais do que o valor citado por Elio da Mata.
A diferença não pode ser tratada como mera aproximação ou erro de arredondamento. Trata-se de uma divergência expressiva entre uma declaração pública e os números oficialmente divulgados pelos órgãos responsáveis pela arrecadação.
A queda existe. O problema é a narrativa.
É inegável que a CFEM vem apresentando redução desde o recorde histórico de 2021, impulsionado pelo elevado preço internacional do minério de ferro.
No entanto, reconhecer essa queda é diferente de transmitir à população a impressão de que o município passou a receber apenas R$ 7 milhões mensais.
Os próprios dados oficiais demonstram que Itabirito continua figurando entre os maiores arrecadadores de CFEM do Brasil, acumulando mais de R$ 1,7 bilhão nos últimos cinco anos.
Apresentar um cenário mais dramático do que aquele demonstrado pelos números públicos pode induzir a população a uma percepção equivocada sobre a real situação financeira do município.
O orçamento também desmente um cenário de colapso
A análise das Leis Orçamentárias reforça essa conclusão.
O orçamento municipal foi fixado em:
- R$ 844,3 milhões em 2024;
- R$ 882,8 milhões em 2025;
- R$ 826,9 milhões em 2026.
Posteriormente, a Prefeitura ainda encaminhou projeto incorporando aproximadamente R$ 91 milhões em recursos federais que não haviam sido incluídos na elaboração inicial da Lei Orçamentária.
Na prática, o orçamento de 2026 supera R$ 918 milhões, mantendo Itabirito entre os municípios de maior capacidade financeira de Minas Gerais em relação ao número de habitantes.
Esses números não eliminam os desafios da administração pública nem significam que os recursos sejam ilimitados. Porém, também não sustentam a narrativa de uma arrecadação reduzida aos patamares mencionados pelo prefeito.
A população flutuante impulsionou a economia da cidade de Itabirito
Outro ponto abordado por Elio da Mata foi a chamada população flutuante formada por trabalhadores das mineradoras e empreiteiras.
Segundo o prefeito, a presença desses profissionais aumenta os custos do município com saúde, educação e segurança.
Esse raciocínio representa apenas parte da realidade.
Durante anos, esses trabalhadores movimentaram intensamente a economia local. Foram eles que consumiram em supermercados, abasteceram postos de combustíveis, frequentaram restaurantes, bares, hotéis, academias, barbearias, imobiliárias e diversos outros estabelecimentos.
Quando as grandes obras terminaram e milhares desses profissionais deixaram Itabirito, quem sentiu o impacto imediato foi justamente o comércio local, que perdeu consumidores e viu o faturamento diminuir.
Ou seja, a população flutuante também gerava emprego, renda e arrecadação para a cidade.
Gestão pública exige compromisso com os fatos
Prefeitos possuem legitimidade para defender suas posições políticas e expor as dificuldades enfrentadas pela administração. No entanto, quando utilizam números para fundamentar seus argumentos, essas informações precisam corresponder aos dados oficiais.
No caso da CFEM, os registros públicos mostram que houve redução na arrecadação em relação aos anos de pico, mas não na proporção apresentada pelo prefeito.
Em uma época em que a transparência e o acesso à informação são pilares da administração pública, declarações envolvendo receitas milionárias devem ser acompanhadas de precisão. Afinal, quando os números oficiais dizem uma coisa e o discurso público aponta outra, cabe ao jornalismo confrontar versões com fatos.

