A denúncia envolvendo o vereador Renê Butekus (PSD) dificilmente resultará em cassação de mandato. Apesar da repercussão do caso e das acusações de possível favorecimento em atendimento na UPA Celso Matos Silva, uma série de fatores indica que o cenário político e jurídico não favorece uma punição mais severa ao parlamentar.
O primeiro ponto que enfraquece a denúncia é a ausência de comprovação de que o vereador tenha utilizado o cargo para obter vantagem. Servidores que atuavam no atendimento do dia 20/02 relataram que sequer sabiam que o paciente era vereador. Segundo esses profissionais, não houve qualquer tipo de pressão, exigência ou comportamento que indicasse tentativa de interferência no fluxo da unidade. Esse tipo de testemunho vai diretamente contra a principal acusação: a de que teria havido uso de influência.
Outro elemento relevante é o intervalo entre o ocorrido e a formalização da denúncia. O caso aconteceu em 20/02, mas só foi oficialmente levado à Câmara no dia 8/04, mais de 45 dias depois. Nesse período, Renê intensificou críticas à administração municipal, com vídeos que repercutiram amplamente nas redes sociais, inclusive questionando a ausência do prefeito em situações públicas. Nos bastidores, esse contexto levanta suspeitas de que o episódio tenha sido politicamente potencializado.
O histórico de conflitos entre o vereador e a Secretaria Municipal de Saúde também entra na análise. Renê é um crítico frequente da gestão da pasta e já foi alvo de ação judicial movida pela própria secretaria, que acabou derrotada na Justiça. Aliados do parlamentar apontam esse histórico como indício de perseguição política, o que contribui para enfraquecer a narrativa de irregularidade isolada.
No campo decisivo — o plenário da Câmara — a possibilidade de cassação encontra ainda mais resistência. Pela legislação, são necessários dois terços dos votos dos vereadores, ou seja, cerca de 10 dos 15 parlamentares. No entanto, interlocutores indicam que esse número está longe de ser alcançado. Vereadores da oposição já sinalizaram voto contrário à cassação, e até mesmo integrantes da base governista, mas próximos ao vereador, demonstram resistência. Alguns parlamentares afirmam, inclusive, que não participariam do que consideram uma “disputa política menor”, diante de problemas mais urgentes da cidade.
A pressão popular também pesa. Parte significativa da população tem se manifestado nas redes sociais em defesa do vereador, interpretando o caso como tentativa de silenciar críticas à gestão municipal. Em cidades de porte médio como Itabirito (MG), esse tipo de mobilização costuma influenciar diretamente o posicionamento dos parlamentares.
Entenda o caso
A denúncia aponta que Renê Butekus (PSD) teria sido atendido antes de outros pacientes na UPA, mesmo tendo chegado depois. Registros indicam que ele deu entrada às 19h15, enquanto outro paciente, identificado como J.C., chegou às 18h41. Ambos foram classificados com pulseira verde, o que indica baixa urgência.
Ainda assim, o tempo de espera foi diferente. O outro paciente aguardou cerca de 2 horas e 16 minutos, enquanto o vereador foi atendido em aproximadamente 1 hora e 30 minutos. A divergência levantou suspeitas sobre possível quebra da ordem de atendimento.
O documento protocolado na Câmara sustenta que cerca de 13 pessoas teriam sido atendidas após o parlamentar, mesmo estando na unidade antes dele. Entre os elementos apresentados estão registros do sistema interno da UPA, imagens de câmeras de segurança, boletim de ocorrência e relatos de testemunhas.
Outro ponto sensível é a alegação de que um vigia armado teria pressionado a equipe da unidade para garantir o atendimento — acusação negada pelo vereador, que afirma não ter havido qualquer tipo de coação.
Episódio de discussão também repercutiu
O caso ganhou ainda mais visibilidade após a divulgação de um vídeo em que o vereador aparece discutindo com um paciente e o chama de “otário”. A gravação mostra o momento de tensão nas proximidades da unidade de saúde, após questionamentos sobre a ordem de atendimento.
A Polícia Militar foi acionada, e um boletim de ocorrência foi registrado. O episódio, embora tenha ampliado a repercussão do caso, não é, por si só, suficiente para caracterizar quebra de decoro em nível que justifique cassação, segundo avaliações de bastidores.
Defesa do vereador Renê Buteku’s
Renê Buteku’s (PSD) afirma que o atendimento seguiu rigorosamente os critérios técnicos do sistema de saúde, baseados no Protocolo de Manchester, que prioriza a gravidade dos casos e não a ordem de chegada.
Segundo ele, não houve uso do cargo, nem tentativa de obter vantagem. O vereador também afirma que não se identificou como parlamentar durante o atendimento e que aguardou normalmente após passar pela triagem.
De acordo com sua versão, profissionais da própria unidade confirmaram às autoridades que o atendimento ocorreu dentro da normalidade.
O que diz a Prefeitura
A Prefeitura de Itabirito sustenta que houve indícios de quebra da ordem de atendimento e possível interferência no funcionamento da unidade. O caso foi encaminhado à Câmara Municipal e ao Ministério Público de Minas Gerais para apuração.
A administração municipal reforça que o sistema público de saúde deve seguir critérios técnicos e que qualquer tentativa de privilégio é incompatível com os princípios da administração pública.
Como funciona uma cassação
O processo segue o Decreto-Lei nº 201/1967. Após a leitura da denúncia em plenário, os vereadores votam sua admissibilidade. Se aprovada por maioria simples, é criada uma comissão processante.
Ao final da investigação, o relatório é votado em plenário. Para que haja cassação, é necessário o apoio de dois terços dos vereadores — um quórum elevado e difícil de alcançar, especialmente em cenários politicamente divididos.
Mesmo com a repercussão e a gravidade das acusações, o conjunto de fatores — ausência de prova direta de interferência, contexto político de confronto, fragilidade da denúncia e falta de apoio suficiente na Câmara — torna a cassação de Renê Butekus altamente improvável.
O caso deve seguir em análise nas esferas administrativa e possivelmente judicial, mas, no campo político, a tendência atual é de que não haja avanço para a perda de mandato.

